Esse documentário me destruiu emocionalmente. Mesmo naquele local isolado da Macedônia o maior vilão é o sistema. A exploração desrespeitosa e inconsequente resulta no desequilíbrio e na morte. O dinheiro aliado à destrutividade e egocentrismo do homem é uma combinação angustiante de assistir. É difícil entender que o ser humano é parte da natureza e não o dono (mesmo quando depende-se essencialmente dela para sobreviver). Precisamos de harmonia, porém como se vivemos num sistema onde a vida é o menos importante? Onde a prioridade é a produção em massa e o lucro? Os mais “fracos” na escala de poder são sempre os que mais sofrem…E Honeyland mostra essa “cadeia exploratória” com poucos diálogos, imagens impressionantes em uma montagem inteligente e ruídos perturbadores ecoando no silêncio.
O patriarca da família recém chegada ao local representa o masculino primitivo, a ganância e a agressividade. Os filhos ainda crianças sendo tratados como trabalhadores e ensinados a perpetuar os comportamentos destrutivos. Os animais sofrendo e sendo extremamente mal tratados e explorados. O homem que desumanizou-se para o sistema (representado pelo comprador de mercadorias) e parece que a natureza está sempre tentando o expulsar de lá. Em contraponto, temos a protagonista Hatidze, uma mulher vestida de amarelo e lenço estampado de flores. Ela vive ali e sobrevive da extração do mel, mas entende que o equilíbrio e comunhão com a natureza é primordial. É uma personagem muito cativante e empática. A imersão completa (por vezes quase ficcional) na rotina dela auxilia na construção dessa afetividade. Uma mulher com cicatrizes da existência na pele, porém sem deixar de sentir amor pelos outros seres e respeitar o processo cíclico da natureza (o filme faz aqui também um paralelo lindo entre a filha cuidando da mãe idosa, além do símbolo literal do relacionamento existe a interpretação de mãe como a “mãe natureza”; a nossa grande mãe). Viver compreendendo que “leva metade e deixa metade” é sábio, mas às vezes pode ser solitário e doloroso dentro dessa sociedade. Pra mim a Hatidze é a síntese dali: beleza e crueldade. A natureza retorna tudo, o bem e o mal. Espero que ela colha esses bons frutos.