Como lidar com o fim? Acho que quase ninguém sabe essa resposta. O processo do luto é intenso e doloroso. O luto não precisa ser necessariamente devido a uma morte física, mas pode ser também de ciclos que encerram, relacionamentos, ideias… a morte simbólica de quem já fomos um dia.
E para evitar esse sofrimento tentamos ir para um lugar onde só existe a luz, mas esquecemos que onde há luz também há sombra. Uma não existe sem a outra. Quando tudo o que acreditamos pertencer ou ser já não vive mais, o que acontece? Talvez nos apegamos excessivamente a outras pessoas, religião, dogmas, drogas, tudo com a intenção de preencher e não ver o nosso próprio vazio. Esse é o processo que a protagonista atravessa durante o filme. Toda a família dela morre e ela se apega a um namoro falido para superar esse momento. Então o casal e um grupo de amigos viajam para uma comunidade rural na Suécia, onde tem um festival folclórico repleto de rituais psicodélicos e a maior parte do tempo é dia. Um lugar aparentemente muito bonito, florido, ensolarado, pessoas dançando, felizes, quase como num conto de fadas. Porém situações perturbadoras começam a acontecer pra nos lembrar que nem tudo é o que parece ser. O que existe por trás das máscaras? Então o filme assume o tom de uma bad trip transitando entre o surrealismo (o idealizado) e o terror (a realidade). Em um dos diálogos eles falam sobre como naquele local a morte é tida como uma etapa natural, e que isso causa aversão aos turistas pq a morte é um tabu cultural. Ali todo o caos que estava imerso vem à consciência da protagonista e ela permite ver, sentir e acolher a própria dor para depois transformá-la. Encerra tudo o que já não lhe servia mais e torna-se rainha. Mas não de uma maneira romântica e sim através da destruição desse mito. Porém ela está livre? Ela transforma o sofrimento das relações do passado mas, de certo modo, fica presa nos dogmas daquela comunidade.
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“Bacurau” inicia com um plano da terra vista por satélite bem no estilo ficção científica hollywoodiana. E com essa imagem e uma música da Gal Costa vamos nos aproximando aos poucos dessa cidade afastada chamada Bacurau. Desde os primeiros minutos já fica clara a ideia central: a interferência de alguns países tidos como desenvolvidos na nossa sociedade; o processo colonizador x colonizado ainda nos dias atuais.
Começamos então a adentrar na rotina dessa pequena comunidade e, de repente, pessoas de lá morrem violentamente, a cidade fica sem sinal de celular e está sumindo do mapa. Descobre-se que existe um grupo de “gringos” que, junto com o prefeito( classe política) e 2 turistas brasileiros( classe média alta e elite), tem o plano de extinguir Bacurau. Os moradores resolvem unir as suas forças, estratégias e armas para resistir e combater o “inimigo”.
Bacurau talvez seja o Brasil idealizado dos diretores dentro de um possível futuro trágico. Um lugar onde a população vive nas suas diferenças e dificuldades, sem preconceitos, ajudando uns aos outros e unida. Mas em tempos de ódio, a violência é também um forte elemento que o filme traz como protagonista.
É uma obra atual e importante. E muito positiva e bem realizada através da montagem a escolha de transitar por diferentes gêneros e referências cinematográficas. Uma hora é ação, outra western, outra suspense, Glauber Rocha, Sganzerla, John Carpenter, Sergio Leone… Um pouco do universo audiovisual dos diretores projetado na tela e bem utilizado como linguagem. Um filme bastante crítico e político, mas que também homenageia quem os formou.