“E se a protagonista for mulher faça com que ela se case no fim. Ou morra. Um dos dois” diz o agente literário para Jo. Jo é uma jovem mulher que deseja trabalhar como escritora. Adoráveis Mulheres inicia pela fase adulta da protagonista e a dificuldade em consolidar-se na carreira dentro da sociedade patriarcal. O filme é ambientado nos períodos de guerra e pós-guerra civil americana, e acompanha o crescimento de um grupo de irmãs. Os primeiros minutos da obra introduzem as personagens já em suas vidas adultas, e então os tons frios e sombrios contidos nos figurinos e na fotografia transformam-se em tons quentes e acolhedores da juventude. As personagens adultas que foram apresentadas anteriormente são, então, apresentadas na infância/adolescência com toda a inocência, sonhos e medos. O filme tem uma narrativa não-linear, ele transita o tempo todo entre as fases das irmãs. Muitas rimas visuais sutis e interessantes são feitas pela montagem afim de tecer essa cronologia. Mas isso pode ser um pouco confuso para alguém mais desatento, pois essas rimas são feitas entre planos similares porém em épocas diferentes. Percebemos essas transições dos anos através da mudança dos penteados, figurinos, fotografia, ambientação, mas muitas vezes elas ocorrem rapidamente. O que faz também do figurino elemento importantíssimo dentro da narrativa. Além de serem lindos de morrer (e é a minha torcida nessa categoria do Oscar) eles são essenciais para contextualizar e compreender o fluir da trama. Trama que utiliza muito bem a metalinguagem. Adoráveis Mulheres prioriza o roteiro, os diálogos e o desenvolvimento das personagens. E devido a isso a atuação também tem um grande destaque. Aborda principalmente as relações entre /das mulheres, os anseios x a realidade, os papéis de gênero, a autonomia da mulher, os dilemas em quebrar o padrão pré-estabelecido, assim como a dificuldade da mulher em consolidar-se artista. Como ser artista numa sociedade onde homens precisam validar o trabalho de mulheres para ser considerado arte? Ou até mesmo algo vendável enquadrado em filtros e construções machistas? A diretora Greta Gerwig faz uma forte crítica a esse tema: somos controladas e julgadas na nossa criação. A liberdade da mulher passa também pela liberdade de construir a própria ficção, a própria representação do mundo. E aí a metalinguagem entra de uma maneira certeira costurando a histórias das personagens com a do livro e, por consequência, com a do filme (que foi dirigido por uma mulher). Claro, com várias décadas de diferença e depois de muitas conquistas já adquiridas, mas ainda com algumas estruturas que continuam sólidas. Existe um final em que nós não precisamos casar se não quisermos e nem morrer, mas qual é o que você prefere assistir?
Categories