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Honeyland- Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov

Esse documentário me destruiu emocionalmente. Mesmo naquele local isolado da Macedônia o maior vilão é o sistema. A exploração desrespeitosa e inconsequente resulta no desequilíbrio e na morte. O dinheiro aliado à destrutividade e egocentrismo do homem é uma combinação angustiante de assistir. É difícil entender que o ser humano é parte da natureza e não o dono (mesmo quando depende-se essencialmente dela para sobreviver). Precisamos de harmonia, porém como se vivemos num sistema onde a vida é o menos importante? Onde a prioridade é a produção em massa e o lucro? Os mais “fracos” na escala de poder são sempre os que mais sofrem…E Honeyland mostra essa “cadeia exploratória” com poucos diálogos, imagens impressionantes em uma montagem inteligente e ruídos perturbadores ecoando no silêncio.

O patriarca da família recém chegada ao local representa o masculino primitivo, a ganância e a agressividade. Os filhos ainda crianças sendo tratados como trabalhadores e ensinados a perpetuar os comportamentos destrutivos. Os animais sofrendo e sendo extremamente mal tratados e explorados. O homem que desumanizou-se para o sistema (representado pelo comprador de mercadorias) e parece que a natureza está sempre tentando o expulsar de lá. Em contraponto, temos a protagonista Hatidze, uma mulher vestida de amarelo e lenço estampado de flores. Ela vive ali e sobrevive da extração do mel, mas entende que o equilíbrio e comunhão com a natureza é primordial. É uma personagem muito cativante e empática. A imersão completa (por vezes quase ficcional) na rotina dela auxilia na construção dessa afetividade. Uma mulher com cicatrizes da existência na pele, porém sem deixar de sentir amor pelos outros seres e respeitar o processo cíclico da natureza (o filme faz aqui também um paralelo lindo entre a filha cuidando da mãe idosa, além do símbolo literal do relacionamento existe a interpretação de mãe como a “mãe natureza”; a nossa grande mãe). Viver compreendendo que “leva metade e deixa metade” é sábio, mas às vezes pode ser solitário e doloroso dentro dessa sociedade. Pra mim a Hatidze é a síntese dali: beleza e crueldade. A natureza retorna tudo, o bem e o mal. Espero que ela colha esses bons frutos.

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Adoráveis Mulheres- Greta Gerwig

“E se a protagonista for mulher faça com que ela se case no fim. Ou morra. Um dos dois” diz o agente literário para Jo. Jo é uma jovem mulher que deseja trabalhar como escritora. Adoráveis Mulheres inicia pela fase adulta da protagonista e a dificuldade em consolidar-se na carreira dentro da sociedade patriarcal. O filme é ambientado nos períodos de guerra e pós-guerra civil americana, e acompanha o crescimento de um grupo de irmãs. Os primeiros minutos da obra introduzem as personagens já em suas vidas adultas, e então os tons frios e sombrios contidos nos figurinos e na fotografia transformam-se em tons quentes e acolhedores da juventude. As personagens adultas que foram apresentadas anteriormente são, então, apresentadas na infância/adolescência com toda a inocência, sonhos e medos. O filme tem uma narrativa não-linear, ele transita o tempo todo entre as fases das irmãs. Muitas rimas visuais sutis e interessantes são feitas pela montagem afim de tecer essa cronologia. Mas isso pode ser um pouco confuso para alguém mais desatento, pois essas rimas são feitas entre planos similares porém em épocas diferentes. Percebemos essas transições dos anos através da mudança dos penteados, figurinos, fotografia, ambientação, mas muitas vezes elas ocorrem rapidamente. O que faz também do figurino elemento importantíssimo dentro da narrativa. Além de serem lindos de morrer (e é a minha torcida nessa categoria do Oscar) eles são essenciais para contextualizar e compreender o fluir da trama. Trama que utiliza muito bem a metalinguagem. Adoráveis Mulheres prioriza o roteiro, os diálogos e o desenvolvimento das personagens. E devido a isso a atuação também tem um grande destaque. Aborda principalmente as relações entre /das mulheres, os anseios x a realidade, os papéis de gênero, a autonomia da mulher, os dilemas em quebrar o padrão pré-estabelecido, assim como a dificuldade da mulher em consolidar-se artista. Como ser artista numa sociedade onde homens precisam validar o trabalho de mulheres para ser considerado arte? Ou até mesmo algo vendável enquadrado em filtros e construções machistas? A diretora Greta Gerwig faz uma forte crítica a esse tema: somos controladas e julgadas na nossa criação. A liberdade da mulher passa também pela liberdade de construir a própria ficção, a própria representação do mundo. E aí a metalinguagem entra de uma maneira certeira costurando a histórias das personagens com a do livro e, por consequência, com a do filme (que foi dirigido por uma mulher). Claro, com várias décadas de diferença e depois de muitas conquistas já adquiridas, mas ainda com algumas estruturas que continuam sólidas. Existe um final em que nós não precisamos casar se não quisermos e nem morrer, mas qual é o que você prefere assistir?

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O Irlandês- Martin Scorsese

“Tem 3:30 hrs de duração” esse foi o meu primeiro pensamento antes de assistir O Irlandês: o tempo, o quanto ele dura. Mas isso é justamente o que move esse filme. O Irlandês abre com um travelling que inicia na porta do corredor de uma casa de repouso. Vemos nesse primeiro plano (que assemelha-se a uma tela) muitas pessoas idosas, enfermeiros, enfim a rotina desse ambiente. Então a câmera nos leva até o protagonista Frank Sheeran: um idoso que está sozinho, sentado numa cadeira de rodas, vestido em roupas datadas e usando alguns objetos de ouro. Logo em seguida, ele começa a contar a própria trajetória dentro da máfia. A narrativa inicia pela fragilidade da velhice, e aos poucos, o começo e meio da história homérica como gangster são expostos. É um filme que brinca com o tempo (numa montagem incrível, por sinal) com o ir e vir, passado, presente e futuro. Com o ritmo, acelera, desacelera, o tempo passa veloz como nas sequências de ação ou vagaroso como nas sequências introdutórias? Os espectadores experimentam essa sensação( e a longa duração da obra também auxilia nesse quesito). Estamos assistindo às memórias do protagonista, e as memórias são pequenos filmes que existem dentro de nós. Portanto, Frank está ali montando o filme de quase uma vida inteira antes de morrer… Não tem como isso ser rápido.
Acho que O Irlandês poderia ser apenas um filme de gênero excelente. Porém ele utiliza a máfia como pano de fundo para propor reflexões mais complexas sobre a vida e a morte, sobre amizade, família, envelhecer e sobre as escolhas que fazemos. É um tanto melancólico. A fotografia sempre em tons frios. As cores sóbrias da existência. O que existe por trás do glamour de ser um gangster? Scorsese faz tb uma reflexão humana e necessária sobre esse cinema.

Ps: sim, foi difícil engatar nesse filme. Percebi o quão rápido a minha atenção dispersa e o quanto já estou acostumada com as estruturas mais fragmentadas e curtas. Na primeira vez que assisti não consegui ficar imersa todo o tempo. Depois do término, compreendi a grandiosidade do filme e decidi rever =)

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1917- Sam Mendes

A maioria dos indicados ao Oscar de melhor filme desse ano traz a violência como um elemento importante (pra não dizer crucial). Filmes sobre períodos de guerra, máfia, violência social, etc. Estamos vivendo numa época belicosa e o cinema caminha com a história nesse retrato dos tempos atuais e passados. 1917 é um desses indicados, um filme dirigido por Sam Mendes e ambientado na primeira guerra mundial (inspirado em relatos que o avô do diretor contava). A trama é basicamente sobre 2 soldados britânicos que precisam entregar uma mensagem para cessar um ataque e assim impedir um massacre. Os dois tem de atravessar um grande percurso até um determinado horário para conseguirem cumprir essa tarefa. O filme acompanha a jornada desses personagens através da simulação de um único plano-sequência. E isso é algo que realmente funciona nessa temática, pois esse ritmo de perseguição gera uma maior imersão do espectador na narrativa. Porém aí também está o meu problema com a obra: a prioridade em entreter ao invés de aprofundar. Não tenho nem o que dizer sobre a estética e técnica… O design de produção e os efeitos visuais são perfeitos na construção da ambientação: as trincheiras, as cidades destruídas pela guerra, os cadáveres humanos e de animais, enfim toda a enorme devastação que algo assim ocasiona é retratada de maneira muito realista. Me impressionou bastante. Imagens belíssimas feitas em longos planos em um cenário horrível e cruel, a estetização da violência foi a escolha feita pela fotografia. São escolhas. Os heróis e os vilões bem definidos. A jornada do herói e talvez um esvaziamento do roteiro. Ele entretém, nós ficamos tensos com os obstáculos a serem ultrapassados pelos heróis dali, mas e aí? O que tem além disso? Tem tantos filmes de guerra que nos propõem muito mais. Acho 1917 um filme visualmente e tecnicamente ótimo, mas que poderia ser muito mais interessante na abordagem e no desenvolvimento. Tudo bem que eu já não morro de amores por esse gênero, mas pra mim foi só mais um “filme bem feito”.

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